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Faz-de-conta, por quê?

faz-de-conta

A linguagem do faz-de-conta, elemento fundamental do trabalho psicopedagógico na educação infantil, é discutido.

Faz-de-conta é para a vida inteira. Quantas vezes, nós adultos, não fazemos de conta que realizamos algum sonho? A criança “faz-de-conta” com espontaneidade, experimentando com o próprio corpo. A partir de uma certa idade,, o faz-de-conta vai se sofisticando. Usa mais a imaginação que o corpo.

Por volta de um ano, a criança começa a reproduzir, imitar ações e situações que ela mesmo vivenciou, ou que observou outros fazendo. Experimenta ninar a boneca, levanta a camiseta para dar de mamar ao ursinho, dá de comer ao adulto que está dando-lhe de comer, provocando risadas em quem assiste, “Re-apresenta” com o próprio corpo cenas já vivenciadas ou observadas.

Sabe-se que esta é uma das formas de a criança explorar o que vivenciou, procurando compreender o que aconteceu ou como as coisas se dão, tanto afetiva como cognitivamente. Dessa maneira, ela se apropria das coisas vivenciadas. Ela as internaliza, torna-as suas.

Apenas a criança humana é capaz desse feito. Outros animaizinhos não. É a capacidade simbólica humana, sua capacidade única de fala, a qual é construída nos diálogos estabelecidos com a mãe ou familiares, desde o início da vida. O “fazer de conta que uma coisa é outra” torna-a capaz de transformar um pedaço de pau em um cavalo de montar, em uma espingarda ou ainda numa boneca que ela enrola em um pano e embala, para dormir.

A criança consegue, assim, imaginar que uma coisa pode funcionar como outra. Um chocalho pode ser uma colher. Um lápis, um microfone. Brincando, experimentando diversos modelos, a criança vai atribuindo ao objeto diversas funções, desenvolvendo sua criatividade e fantasia. A caixa pode ser mesinha, armário, chapéu ou um cofrinho. Quanto mais experiências diferentes, mais passeios, músicas, histórias, pinturas, mais rico será o universo de seu faz-de-conta.

No início a criança imita ações mais simples, que o adulto se diverte em lhe ensinar: bater palminhas, dar tchau, por exemplo. Bebês de um mês ou dois têm sido observados imitando o adulto que mostra língua à sua frente. Mas é interessante observar que o adulto também imita frequentemente o bebê, sem nem perceber. Imita seus movimentos de boca ao alimentá-lo, ou repete seus balbucios, estabelecendo assim um diálogo com o bebê. Servir de espelho para o outro é uma maneira importante de relacionamento, em que a ação de cada um adquire um significado especial, compartilhado entre ambos.

Pouco a pouco, com o desenvolvimento da linguagem e a maior habilidade de planejar, o faz-de-conta fica mais complexo. A criança torna-se mais capaz de informar o parceiro da brincadeira sobre o papel que ele está assumindo, capaz de montar um cenário, assumir em personagem, manter um tema coerente etc.

Aqui estão das crianças de dois anos e meio:

Beatriz – Manhê, eu vou tabaiá. Cadê minha chave?

Helena – Você quer mamadela?

Beatriz – Não, manhê. Eu não mamo, eu tabaio. Tchau.

Beatriz já tem a linguagem do fazer-de-conta mais estabelecida que Helena. Esta não percebeu as dicas dadas por aquela durante a cena, então Beatriz reforça o papel de moça.

Brincando, a criança entra no mundo imaginário onde ela é a autora do seu script.

Quando diz: “Faz-de-conta que eu sou o motorista”, ela passa a ser o motorista naquele momento. Ela pode entrar na fantasia, experimentar outros papéis, criar outros temas e cenários. Mas ela sabe que ela é uma criança e não um motorista. Na hora em que ela acabar a brincadeira, ela volta à realidade.

Experimentando a linguagem do fazer-de-conta, a criança vai dominando o mundo, compreendendo como ele é. Isso se dá tanto concreta quanto simbolicamente. “Vamos fazer de conta que eu ia ao supermercado”. Nessa brincadeira, a criança paga as compras e trabalha com a compreensão concreta da realidade. “Faz de conta que você é a Bruxa malvada”. Nesta, a criança trabalha o significado da maldade, numa compreensão simbólica.

No faz-de-conta a criança aprende a dominar regras, trabalhar suas emoções, seus medos. Ela experimenta diferentes papéis. Geralmente escolhe aqueles que são os mais próximos do mundo que a cerca. Passa assumir um desses papéis, então pode entender o que ele é e o que faz. “Faz de conta que sou médico. Vou sarar seu nenê”.

É por tudo isso que um dos referenciais mais importantes no nosso trabalho psicopedagógico é o faz-de-conta. É através dele que avaliamos o desenvolvimento das crianças de um a quatro anos. Observando o brincar das crianças, acreditamos ser possível compreender seu processo de socialização.

Trecho retirado do livro: Os fazeres na educação infantil

Autores: Edna Ap. A. da Costa, Lésia M. Fernandes Silva, Cândida Bertolini e Lucimeire Ap. Coelho

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